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ERUDITO OU POPULAR
Carmen Garcia

          Tenho um jovem amigo diretor de musicais, portanto ligado à música popular. Algumas pessoas da sua idade têm uma curiosidade pelo conhecimento em si. Infelizmente não são todos. Ele é uma dessas pessoas que não querem perder tempo. Parece que tem pressa de realizar seu plano de vida. Jovens criativos, empreendedores. Sim, eles ainda existem.

           Ele me perguntou no meio de uma conversa: "Qual a diferença entre música popular e erudita?" Esse amigo justificou então o porque da pergunta: o que é bom transcende a origem ou estilo? Rapidamente tentei iniciar uma explicação, pois me parecia fácil a resposta, já que sou flautista de uma orquestra sinfônica.

           Não era tão simples assim. Conversamos sobre etimologia (trata da origem das palavras de uma língua), tentamos uma definição para o termo "erudito", o por que deste termo ser aplicado só a um tipo de linguagem, enfim começamos um bom "papo cabeça".

           Lá pelas tantas, resolvemos consultar um dicionário. Também chamado carinhosamente aqui em casa de "pai dos burros". Estavam lá vários conceitos, que acabaram se tornando capítulos de um interessante debate.

           Capítulo um: erudição: s.f. vasto saber adquirido principalmente pela leitura, mormente em todos os assuntos do domínio da história.

           Nos pareceu óbvio que essa definição referia-se à literatura. Mas se pensarmos em música.... Um músico só seria considerado erudito se tivesse um vasto conhecimento da literatura musical de todos os tempos. Dessa forma, só se poderia chamar de erudito o pesquisador da área da musicologia. Pessoas que se dedicam a fazer levantamento de "objetos de estudo", e depois, estuda-os. Isso leva muito tempo. O grande nome que nos surgiu foi sem dúvida Mário de Andrade com várias publicações, que são referência para muitos estudantes e interessados em conhecer a música brasileira. Então eu coloquei que o músico de orquestra por exemplo, que é o meu caso, teria dificuldades de se encaixar neste perfil, pois sua preocupação é mais ligada à praticidade: tem horário de ensaios, datas a cumprir, planos de trabalho a realizar, enfim, o dia a dia. Concluímos que a grande maioria então de meus colegas, seriam especialistas em uma determinada área da música erudita no caso, "intérpretes": os que adquirem um domínio de seu instrumento a tal ponto de não interferirem na concepção do compositor, sabendo executar com precisão a partitura tal como foi concebida originalmente. Desenvolveriam um bom nível de conhecimento de estética, estilo e domínio técnico a ponto de serem eruditos. Concordamos! É uma espécie de erudição restrita a uma área.

           Músicos notoriamente eruditos por seus trabalhos de pesquisa e aprofundados conhecimentos em música seriam poucos: Villa Lobos, Carlos Gomes, talvés a classe dos maestros teriam que comportar essa exigência de erudição, embora o que se vê é que nem sempre isso ocorre. Felizmente há boas e gratas excessões.

           Por outro lado, na área de música popular encontramos compositores como Hermeto Pascoal que se encaixaria perfeitamente na definição, pois é um grande pesquisador das raízes nacionais, além de um grande músico. O que dizer de Radamés Gnatalli que atuou sempre no limite das duas correntes: erudita e popular? Ou autores que arranjam suas músicas com tal maestria e "eruditismo" como Egberto Gismonti? Eruditos então se encontram em todas as áreas de expressão artística. Mais uma vez concordamos.

           Prosseguimos no dicionário e ao passarmos por outro termo ficamos instigados: eruditão: s. m. o que blasona de erudito não o sendo.

           Ao ler isso nos veio imediatamente a vontade de dar boas gargalhadas, e todos que participavam da conversa, pois o debate animou-se e a nós juntou-se mais umas três pessoas, começamos a citar nomes que nos pareciam se encaixar nesta definição, e claro, mais gargalhadas. Estamos rodeados de eruditões.

           Concluímos que não há uma diferença notável entre as duas linguagens. Pelo menos não de uma forma simples de definir. Sabe-se que em meados do século XIX essa diferença não existia. Compositores como Francisco Manuel da Silva, autor do nosso hino nacional e conhecedor profundo das técnicas eruditas européias faziam modinhas da mesma forma. Assim como grandes virtuoses europeus encantavam-se pela música de salão da corte. Carlos Gomes também com sua modinha "Quem Sabe", ou Villa Lobos com sua série de choros, que mais parecem exercícios de "erudição", tal a complexidade encontrada para executar ou simplesmente apreciar. Os primeiros choros tocados por Ernesto Nazareth ao piano (cuja formação foi erudita) são de uma complexidade extrema. Nosso primeiro flautista famoso Joaquim Callado foi professor do Conservatório Nacional e compôs a famosa valsa "Flor Amorosa", hoje de domínio público. E pensar que foi composta em 1880!

           Vai aí uma boa razão para se analisar a música que nos é enfiada goela abaixo e dita como "BOA". A minha conclusão particular é que pelo menos "cultura" deveria ser direito obrigatório dos nossos jovens. Ficamos com a sensação que estamos passando por um grande vazio de informação cultural, em que o grande artista do momento é aquele que "aparece" e não o que "conhece". Nós que participamos desse papo resolvemos que vamos fazer algo a respeito, tentando nos eruditizar cada vez mais. E você?

           Para quem quiser debater o assunto, Carmen Garcia é bacharel em Composição e Regência pela UNESP, mestranda em musicologia pela USP e Primeira flauta da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo.
E- mail: m2c2@ig.com.br


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